1ª Geração
(2014 - 2017)
Ficha técnica, versões e história do Maserati Ghibli.
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(2014 - 2017)
(2017 - 2024)
No panteão das grandes marcas automotivas italianas, a Maserati ocupa um lugar singular, distinguindo-se pela fusão de desempenho de pista com um nível de luxo e habitabilidade que muitas vezes escapava aos seus rivais de Maranello ou Sant'Agata Bolognese. O nome "Ghibli" é central para essa identidade. Seguindo a tradição da empresa de batizar seus veículos com nomes de ventos famosos — como o Mistral, Bora, Khamsin e Levante — o Ghibli toma seu nome do árabe líbio para o vento Siroco. É uma força da natureza: um vento quente, seco e muitas vezes violento que varre o deserto do Norte da África em direção ao Mediterrâneo. A metáfora é precisa: o carro foi concebido para cobrir vastas distâncias em alta velocidade, trazendo um calor visceral e uma presença imponente por onde passasse.
A trajetória do Ghibli não é linear; é uma saga dividida em três atos distintos, separados por décadas de silêncio e mudanças corporativas sísmicas. O que começou como um Grand Tourer (GT) de dois lugares na década de 1960, renasceu como um cupê biturbo angular na década de 1990 e, finalmente, metamorfoseou-se no sedã executivo global que sustentou a marca no século XXI. Embora o usuário tenha demonstrado interesse particular na encarnação sedã, a compreensão completa deste veículo exige uma dissecação detalhada de suas vidas passadas, pois foi o prestígio acumulado pelas gerações AM115 e AM336 que conferiu ao sedã M157 sua legitimidade no mercado de luxo.
Este relatório analisa exaustivamente cada geração, detalhando as especificações técnicas, as nuances de produção, as versões especiais e o contexto econômico que moldou cada parafuso e cada curva da carroceria.
Em meados da década de 1960, o cenário dos supercarros estava em ebulição. A Lamborghini havia chocado o mundo com o chassi de motor central do Miura, e a Ferrari dominava as pistas e as estradas com seus V12. A Maserati, sob a liderança da família Orsi e com a engenharia do lendário Giulio Alfieri, precisava de um sucessor para o 5000 GT e o Mistral que reafirmasse sua posição no topo da hierarquia automotiva.
O projeto AM115 nasceu com um objetivo claro: criar o GT mais belo e rápido do mundo, mas sem sacrificar o conforto, uma marca registrada do Tridente. Ao contrário da Lamborghini, que buscava a performance extrema através do layout de motor central-traseiro, a Maserati optou por uma configuração clássica de motor dianteiro e tração traseira. Essa escolha permitiu um habitáculo mais espaçoso e um porta-malas utilizável, essenciais para a clientela aristocrática e industrial que compunha a base da marca.
O design do Ghibli foi confiado à Carrozzeria Ghia, onde um jovem Giorgetto Giugiaro estava começando a deixar sua marca indelével na história do design industrial. Apresentado como protótipo no Salão do Automóvel de Turim de 1966, o carro causou sensação imediata.
A estética do Ghibli AM115 é definida por suas proporções dramáticas. Giugiaro desenhou um capô extraordinariamente longo e plano, que dominava a silhueta do carro. A linha do teto fluía suavemente em um formato fastback até uma traseira truncada (estilo Kamm-tail), que melhorava a aerodinâmica e conferia uma aparência de movimento mesmo quando o carro estava parado. Com apenas 1,16 metros de altura, o Ghibli era um dos carros mais baixos de sua época, exigindo que os ocupantes praticamente se deitassem em seus assentos.
A frente era caracterizada por uma grade larga e baixa com o tridente flutuando ao centro, e faróis escamoteáveis (pop-up) que mantinham a pureza das linhas quando fechados. A ausência de para-choques proeminentes nos primeiros modelos acentuava a limpeza do design, uma característica que seria comprometida em anos posteriores devido às regulamentações de segurança norte-americanas.
Sob o capô escultural residia uma evolução do motor de corrida que equipava o Maserati 450S, um dos carros esporte mais potentes da década de 1950.
O Motor V8
O coração do Ghibli era um V8 de 90 graus, construído inteiramente em liga leve de
alumínio.
O Chassi
O chassi era uma estrutura tubular de aço, robusta mas convencional. A suspensão
dianteira era independente com braços duplos e molas helicoidais. Na traseira, a
Maserati optou por um eixo rígido com feixe de molas, assistido por uma barra
anti-rolagem e braços de reação. Embora criticado por alguns jornalistas da época como
"agrícola" em comparação com a suspensão independente do Jaguar E-Type, o eixo traseiro
do Ghibli era excepcionalmente bem localizado e oferecia uma estabilidade direcional
superior em altas velocidades de cruzeiro, condizente com sua missão de GT.
A versão de lançamento vinha equipada com o V8 de 4.719 cc.
Em resposta às novas normas de emissões nos EUA que sufocavam a potência, e para combater rivais cada vez mais rápidos, a Maserati lançou o Ghibli SS (Tipo AM115/49).
Talvez a variante mais desejável, o Spyder foi lançado dois anos após o cupê. A conversão exigiu reforços estruturais significativos no chassi para compensar a perda do teto.
A produção total da primeira geração do Ghibli superou a de seus rivais diretos, o Ferrari 365 GTB/4 "Daytona" e o Lamborghini Miura, provando o acerto da fórmula de "luxo utilizável".
| Modelo | Período | Unidades Produzidas | Notas de Chassi |
|---|---|---|---|
| Ghibli Coupé (Total) | 1967–1973 | 1.170 | Chassis pares (ex: AM115.1002). |
| Ghibli Spyder (Total) | 1969–1973 | 125 | Chassis ímpares (ex: AM115S.1001). |
| -- Spyder 4.7 | ~80 | Estimativa. | |
| -- Spyder SS 4.9 | ~45 | Uma das variantes mais raras. | |
| Total Geral | ~1.295 |
Nota Importante para Colecionadores: A distinção entre números de chassi pares (Coupé) e ímpares (Spyder) é crucial. Estima-se que cerca de 50 Coupés tenham sido cortados e transformados em conversíveis por oficinas independentes ao longo das décadas. Um chassi par em um carro aberto indica uma conversão, que vale significativamente menos que um Spyder original de fábrica.
Após o fim do Ghibli original em 1973, o nome ficou adormecido por quase 20 anos. Quando retornou em 1992, a Maserati era uma empresa transformada. Sob a propriedade de Alejandro de Tomaso, a marca havia abandonado os grandes GTs V8 feitos à mão em favor da plataforma "Biturbo": carros menores, produzidos em maior escala e impulsionados por motores V6 turboalimentados.
Esta mudança foi motivada em parte pela legislação tributária italiana, que impunha um IVA (imposto sobre valor agregado) punitivo de 38% sobre carros com motores maiores que 2.000 cc, enquanto carros menores pagavam apenas 19%. Para vender carros de luxo na Itália, a Maserati precisava extrair potência de supercarro de motores pequenos.
O Ghibli II (AM336) foi a expressão máxima e final dessa era. Lançado como um sucessor espiritual dos modelos Biturbo cupê (como o 2.22 e o Karif) e fortemente influenciado pelo brutal Maserati Shamal, o Ghibli II visava restaurar a reputação de qualidade e desempenho da marca, que havia sofrido durante os anos 80.
O design foi assinado por Marcello Gandini, o gênio por trás do Lamborghini Countach. O Ghibli II era compacto, musculoso e agressivo.
A alma do Ghibli II residia em seus motores V6 a 90 graus, inteiramente de alumínio, com camisas de cilindro tratadas com Nikasil e cabeçotes de 4 válvulas por cilindro (totalizando 24 válvulas). O carro foi oferecido com dois motores distintos, dependendo do mercado.
Para o mercado doméstico e outros países com impostos baseados na cilindrada.
Para mercados sem restrições fiscais severas (como EUA, Japão, Austrália e restante da Europa).
O modelo original combinava o desempenho feroz com um interior opulento, revestido de couro Connolly, painéis de madeira de raiz de nogueira e o clássico relógio analógico oval da Maserati no painel. O sistema de suspensão utilizava amortecedores ajustáveis eletronicamente Koni (com 4 configurações selecionáveis pelo motorista), uma tecnologia avançada para a época.
Em 1993, a Fiat adquiriu a Maserati de De Tomaso. O efeito foi sentido em 1995 com o lançamento do Ghibli GT. Embora visualmente semelhante, o GT era um carro muito melhor construído.
Para promover a marca, a Maserati criou uma categoria de corrida monomarca chamada "Ghibli Open Cup". Para homologar o carro e celebrar a série, lançou o Ghibli Cup de estrada.
Cerca de 25 a 27 carros foram fabricados exclusivamente para a pista. Estes carros tinham interiores depenados, gaiolas de proteção, escapamentos diretos e motores preparados. Muitos foram convertidos para uso em estrada após o fim da série de corridas, mas são brutais e desconfortáveis para o uso diário.
Uma edição especial para celebrar o recorde de velocidade na água. Pintados em um azul elétrico especial com interior em couro turquesa e acabamento em madeira, mecanicamente eram baseados no Ghibli 2.0L padrão.
| Versão | Unidades Produzidas |
|---|---|
| Ghibli 2.0L (Padrão + GT) | 1.157 |
| Ghibli 2.8L (Padrão + GT) | 1.063 |
| Ghibli Cup (2.0L Estrada) | 60 |
| Ghibli Cup (2.8L) | ~15 (Estimado) |
| Ghibli Open Cup (Corrida) | ~25 |
| Ghibli Primatist | ~60 |
| Total Geral | ~2.380 |
Esta geração encerrou a linhagem Biturbo e foi substituída em 1998 pelo 3200 GT, que marcou o retorno dos motores V8 à linha de cupês da marca.
Quando o nome Ghibli retornou em 2013, o mundo automotivo havia mudado. A Maserati, agora parte integrante da estratégia global da FCA (Fiat Chrysler Automobiles), tinha uma meta ambiciosa: aumentar as vendas anuais de 6.000 para 50.000 unidades. Para isso, não bastava vender supercarros de nicho; era necessário entrar no lucrativo e competitivo segmento de sedãs executivos (Segmento E), dominado pelo BMW Série 5, Mercedes-Benz Classe E e Audi A6.
O Ghibli M157 foi a resposta. Pela primeira vez na história, o nome Ghibli adornava um sedã de quatro portas. Fabricado em uma fábrica totalmente renovada em Grugliasco (a planta "Avv. Giovanni Agnelli"), o carro representou um investimento bilionário e uma aposta na capacidade da marca de industrializar o luxo artesanal italiano.
O design, liderado por Marco Tencone no Centro Stile Maserati, conseguiu disfarçar as dimensões de um sedã em uma silhueta de cupê.
A terceira geração ofereceu a maior variedade de motores da história do modelo, todos turboalimentados.
Desenvolvido pela Maserati em colaboração com a Ferrari e fabricado pela Ferrari em Maranello, este motor 3.0L V6 a 60 graus foi a espinha dorsal da gama.
Para competir na Europa, o Ghibli introduziu o primeiro motor diesel da história da Maserati.
Com o declínio do diesel, a Maserati lançou o Ghibli Hybrid.
Tardiamente, a Maserati atendeu aos pedidos por um V8.
A Maserati manteve o interesse no Ghibli através de séries limitadas altamente colecionáveis.
| Edição | Ano | Detalhes Exclusivos | Quantidade |
|---|---|---|---|
| Nerissimo | 2018 | Pacote "total black": pintura, rodas, grade e escapamento pretos. Interior com costuras escuras. | 450 (EUA/Canadá) |
| Ribelle | 2018 | Pintura exclusiva "Nero Ribelle" (mica), rodas com detalhes a laser vermelhos, interior bicolor preto/vermelho. | 200 (EMEA) |
| Royale | 2020 | Homenagem ao Quattroporte Royale de 1986. Cores Verde Royale ou Blu Royale, rodas exclusivas, interior em Zegna Pelletessuta (couro tecido). | 100 (Série total incl. outros modelos) |
| Fragment | 2021 | Colaboração com Hiroshi Fujiwara. Versões "Operanera" e "Operabianca". Grade exclusiva, cintos azuis, código de produção estampado no para-lama. | 175 (Global) |
| 334 Ultima | 2023 | A despedida do V8. Baseado no Trofeo, otimizado para atingir 334 km/h. Cor "Scià di Persia" (Azul Persa) com interior Terracota. | 103 (Global) |
O Ghibli M157 foi um sucesso comercial sem precedentes para a marca.
A Maserati anunciou oficialmente o fim da produção do Ghibli em dezembro de 2023. A decisão faz parte da estratégia "Folgore" da marca, que visa a eletrificação total. O Ghibli não terá um sucessor direto imediato; seu espaço de mercado será parcialmente coberto pelo SUV Grecale e pela próxima geração do Quattroporte, que será menor e totalmente elétrica. O Ghibli 334 Ultima serviu como o canto do cisne não apenas para o modelo, mas para o motor V8 na história da Maserati.
A história do Maserati Ghibli é a história da própria adaptação da indústria de luxo italiana ao longo de meio século.
O AM115 (1967-1973) representa a Arte: um objeto de desejo puro, nascido em uma era onde a beleza e a velocidade máxima eram as únicas métricas que importavam.
O AM336 (1992-1998) representa a Resiliência: um carro de engenharia engenhosa, criado sob restrições severas, que provou que um motor pequeno poderia ter o coração de um gigante.
O M157 (2013-2023) representa a Ambição: o veículo que transformou uma marca de boutique em uma potência global, provando que um sedã prático pode ter a alma de um carro de corrida.
Para o entusiasta ou colecionador, cada geração oferece uma experiência distinta, mas todas compartilham o DNA fundamental do Tridente: a recusa em ser apenas mais um meio de transporte, insistindo sempre em ser uma experiência emocional. Com o fim da produção, o nome Ghibli retorna ao reino da história, deixando para trás um legado de mais de 130.000 veículos que continuarão a levar o som do Vento do Deserto pelas estradas do mundo.